[ Blavo! A
vida é simples! - Metáphoras - Edição
#4 - Ano 1- 07.03.2005 ]
O Poder do Consumo |
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A idéia de escrever este texto surgiu
logo após o último Fórum Social Mundial,
em 2005 em Porto Alegre. Caminhando pela beira do Rio Guaíba,
uma faixa me chamou a atenção (veja a foto abaixo).

Quando cheguei em casa resolvi acessar o sítio
indicado na foto, atitude que recomendo a todos.
Para aqueles que não seguirem meu conselho,
transcrevo aqui o trecho específico que me inspirou a versar
sobre consumo. É longo, mas vá lá, vale a
pena.
“O mundo não é de ninguém,
muito menos de um pateta que tem a cara do Alfred Newman. O mundo
é meu, seu e do cara que mora embaixo da ponte. Cada um
de nós é o centro do mundo. Pode ser perigoso dizer
isso no mundo atual, mas é a mais pura verdade. Olhe
para sua volta. Tudo, absolutamente tudo, existe por sua causa.
Desde o computador de onde você lê esse texto até
a Casa Branca, tudo só existe por que você existe.
Toda injustiça, toda intolerância, toda falsidade,
tudo isso só existe porque deixamos que isso aconteça.
Sabe qual é o problema? A gente não
se entende e tem medo. Tem medo de tudo. Tem medo de ser assaltado,
tem medo do vizinho ou do cara na rua, tem medo de ser sincero.
Somos a maioria e somos desarticulados. O Brasil é campeão
mundial em futebol e desigualdade social. 50 milhões de
nós somos pobres ou miseráveis. E não é
mais possível conviver com o sentimento de que isso nunca
vai mudar e, ainda por cima, vai piorar cada vez mais.
Somente 13% dos brasileiros tem acesso
a internet e 52% de brasileiros das classes “d” e
“e” estão, nesse exato momento, passando fome
longe de todas as maravilhas do mundo moderno. Dentro
desse contexto, você é um privilegiado. Como eu disse,
você é o centro do mundo. Nesse momento, o conceito
de mundo é relativo, mas não precisa explicar. Aposto
que você entendeu. Tudo é relativo e tudo está
relacionado.
Calma, não estou lhe dizendo para pegar
a sua camiseta surrada do Che Guevara e se juntar a mim numa tomada
pelo poder para promover o bem e a paz social. Isso, decididamente,
nunca vai acontecer. A revolução não
será televisionada simplesmente por que ela não
vai acontecer. Mas isso não quer dizer que o que
a gente tenha que fazer é encher o cu de todos os prazeres
possíveis e mandar uma banana para o resto do mundo. Como
eu lhe disse, você é o centro do mundo e junto com
esse título nobre vem uma série de responsabilidades.
Agora pense, por um momento, em todos
os papéis que você tem na sociedade. Na
sua família, no seu trabalho, no seu bairro, no seu grupo
de amigos, como cidadão, como contribuinte, como eleitor
e tantos outros. Você atua em diferentes papéis e
move todo um sistema através das suas ações.
Em qual deles você interfere mais decisivamente no rumo
das coisas?
Você pode pensar em qualquer um desses
que eu citei, mas eu sinto dizer que nenhum desses é o
mais importante.
Antes de continuar, pare e pense por um segundo:
o que manda no mundo?
Gostaria que fosse diferente, mas o que manda
no mundo é o dinheiro. De maneira geral, no capitalismo,
você só é realmente levado a sério
se você tem dinheiro.
O seu maior poder é o consumo.
Você movimenta o sistema quando decide se vai comprar um
cacho de bananas numa feira de produtores locais ou numa grande
rede de supermercados. Para onde vai o seu dinheiro? O que você
anda consumindo?
Vou lhe dar um exemplo de um produto
simples como um zíper, por exemplo.
Olhe a marca do zíper da sua calça.
É bem provável que a marca dele seja YKK. Vamos
fazer um exercício interativo. Fale com alguns amigos e
comprove com seus próprios olhos. Vá no Google,
digite “YKK zíper” e comprove a supremacia
de mercado dessa marca. Agora vai lá e veja o tamanho do
negócio: www.ykk.com
.
Se tem problemas com inglês, não
se preocupe. A YKK manda também no mercado de zíperes
no Brasil: Grupo
YKK no Brasil. Sabem o que dizem dessa empresa transnacional,
espalhada por 66 países do mundo e líder no mercado
de venda de zíperes? Dizem que trata-se de uma empresa
que apóia e financia movimentos neo-nazistas em toda a
parte. Mas ela teve o cuidado de atuar sobre a marca YKK e não
KKK (Ku Klux Klan).
Tudo isso está relacionado com um inofensivo
zíper.
Agora, pense em todas as decisões relacionadas
às coisas que você consome no seu dia-a-dia. Amplie
o raciocínio e pense no consumo também de uma maneira
mais geral, não necessariamente ligada ao dinheiro em si.
Quando você opta entre um ou outro jornal,
você está optando em consumir essa ou aquela informação.
Quando você paga um imposto você deveria estar consumindo
uma série de benefícios sociais na saúde,
na educação, no lazer, na cultura, nos transportes,
na segurança e em todas as coisas que o Estado deveria
fazer e nunca faz. Até mesmo o processo eleitoral é
guiado pelo consumo, não é à toa que as agências
de publicidade e marketing ganham rios de dinheiro fazendo campanhas
eleitorais.
Afinal, no que realmente resultam as
suas escolhas?
Além do consumo, com o advento da internet
e de todas as novas tecnologias, você tem outro grande poder.
Algum chute?
Você pode ser um estudante universitário
ou uma senhora aposentada. Talvez até tenha uma posição
interessante no seu círculo social. Independente da sua
posição, uma coisa eu tenho certeza a respeito de
você.
Você tem um poder. O mesmo que o William
Bonner só que em menor escala. Mas talvez de uma forma
mais poderosa que ele. Você tem o poder de formar opinião.
Na maioria dos casos, o máximo que você pode fazer
é falar. Ou mandar um email. Ou sorrir. Ou assistir televisão.
Ou ler um livro. Na maioria dos casos, o máximo
que você pode fazer é se comunicar. Adquirir
e trocar conhecimento e crescer com isso.
Vivemos num período histórico singular.
Esse é o primeiro momento na história da Humanidade
que, qualquer um de nós, pode ser um comunicador de massa.
E talvez seja o momento em que o entendimento e a ação
coletiva sejam mais necessários para o bem da Humanidade.
Tudo depende das nossas escolhas e das
nossas ações
Por acreditar nisso tudo que penso, decidi agir.
Resolvi acreditar que seria possível fazer uma conspiração
do bem. Resolvi criar uma marca que expressasse toda perplexidade
com o jeito como as coisas são e fosse a sua antítese.
Resolvi que essa marca ia representar o desejo de cada um de nós
de mudar o mundo. Ou de ser louco o suficiente para achar que
isso é possível.
Ao invés de assaltar bancos, resolvi que
essa organização seria sustentada por todos que
acreditam no poder da maioria, no poder do consumo e no poder
da comunicação. Resolvi que organizaria campanhas
contra as coisas que estão erradas na minha cidade e no
mundo. E que todos aqueles que compartilhassem desse ponto de
vista, pudessem fazer parte dela, comprando os nossos zíperes,
indicando o site, trocando idéias ou até mesmo se
integrando ao grupo de trabalho.
Aliás, preciso que você entenda
que a [ anti ] não vende camisetas. Vendemos mídia
pessoal. Pense num dia normal da sua vida. Você
acorda, toma banho, pega um ônibus, vai ao restaurante,
trabalha e faz um monte de coisas. Quantas pessoas você
encontra num dia normal da sua vida e seríam atingidas
pela mensagem “Fuck You Bush”? O que poderia acontecer?
A proposta que faço é que você
use esse poder para fazer parte de uma grande ação
de pessoas que pensam como você. De pessoas que também
gostaríam de mandar o presidente dos Estados Unidos se
fuder antes que ele termine de acabar com o mundo. De pessoas
que se sintam donos dessa marca tanto quanto eu. De pessoas que
consigam se organizar e usar os seus poderes para interferir no
modo como as coisas são e acontecem.
Essa campanha é apenas o primeiro exercício.
Talvez o senhor George W. Bush nunca ouça falar de nós,
mas isso não tem problema. Mesmo se vendêssemos 1
bilhão de camisetas, ele continuaria fazendo o que quer.
Mas e o que poderíamos fazer com o dinheiro? Acredito
que conseguiríamos dar uma destinação mais
interessante que a YKK.
Sinceramente, espero que você confie em
mim e nas minhas motivações. Gostaria que você
fizesse parte do nosso grupo e que nos ajudasse com a sua ação,
sua inteligência e com os seus poderes.
A partir de agora, não tenho a mínima
idéia do que pode acontecer. A sua reação
com relação ao que você está lendo
é completamente imprevisível. Nesse sentido, a Teoria
do Caos ensina que pequenas mudanças podem causar grandes
efeitos e a teoria sistêmica mostra que uma pequena ação
num ponto certo pode produzir melhoras significativas.
Os sinais do caos estão cada vez mais
aparentes. As mudanças climáticas e o colapso do
meio ambiente, a intensificação do processo de guerras,
a escassez de recursos de todas as espécies e as rebeliões
populares contra tudo e contra todos e a insegurança civil
fazem parte da tendência para os próximos anos.
Você decidiu chegar até aqui.
O que você vai fazer agora?”
Bem. Para aqueles que chegaram aqui,
parabéns. Para aqueles que acharam que eu falaria
sobre alimentos orgânicos, um alento: falarei em breve.
Para aqueles como eu que se sensibilizaram com a proposta do camarada
do ANTI, um convite à ação. Pense como você
também pode se COMUNICAR com aqueles à sua volta
e faze-los abrir os olhos para o poder que tem em mãos.
Fazer perceber a diferença entre comprar um produto no
mercadinho do bairro ou no Big rede de supermercados.
Não torne isso uma obsessão em
sua vida, mas apenas perceba que há uma diferença
e, quando isso não lhe trouxer transtornos demais, pense
que você pode SIM fazer toda a diferença escolhendo
o que VOCÊ consome e educando aqueles que estão à
sua volta.
Essa é a mensagem que ficou para mim.
O rapaz, creio eu, vai vender muitas camisetas (e espero que o
faça, pois, sinceramente, achei a idéia genial)
mas muito mais do que isso, passou uma mensagem que não
deve calar e que deve ser retransmitida aos mais distantes ouvidos
e mentes deste nosso planeta:
CONSUMA COM CONSCIÊNCIA!
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