[ Blavo! A vida é simples! - Metáphoras - Edição #2 - Ano 1- 07.02.2005 ]

Apontamentos sobre o Amanhã

Rateei. Nasci homem!

Esse bem que poderia ser o começo de um conto ou romance, não é mesmo?

Somente nesta frase já temos muito espaço para reflexão.

Vamos fazer o que nossa tão prestigiada Ciência ordena: fracionar o todo em partes e analisar a sentença.

Rateei. Vacilei. Pisei na bola. Perdi o rumo. Errei. Falhei. Me enganei. Deixei passar. Não fui eficaz. Dormi no ponto.

Um simples palavra que consegue trazer dentro de si a potência de várias outras palavras e expressões.

Assim somos nós, icebergs flutuando na imensidão de nossas relações deixando perceber, ao olhar comum, somente a ponta. Entre as multidões, são raros aqueles que vão a fundo e se preocupam em captar nossa essência. Há uma infinitude de Ser embaixo da superfície, em um grito afogado, lutando para ser percebida. Ponto para os sensíveis, perspicazes e observadores.

Nasci. Vim a termo. Me deram à luz. Surgi. Apareci. Tomei vida. Brotei. Me fiz presente. Cheguei à Terra.

Sinônimos são diferentes que querem dizer a mesma coisa.

Assim somos nós, indivíduos singulares singrando mares e conhecendo povos distantes feitos da mesma carne. Aparências discrepantes falando línguas que – fazemos de conta – não podemos entender. Se jogarmos a âncora e nos fixarmos no plácido reflexo das águas calmas, podemos perceber que nosso objetivo é comum: felicidade.

Causamos sofrimento e, quer queira quer não, nos arrependemos, causando sofrimento.

Homem. Humano. Animal. Racional. Irracional. Criador. Criatura. Espécie. Gênero. Força. Fraqueza. Certeza. Dúvida. Homem. Mulher.

Assim somos nós, inteiro fragmentados, pedaços em continuum que vão do bem ao mal em frações infinitas do que convencionamos chamar de tempo. Somos a Cura mas também podemos ser a Doença. Somos o Céu mas também podemos ser o Inferno. Na dança incessante do fluir vital, somos a Ferramenta que constrói (ou destrói) o porvir e, não menos do que ao mesmo tempo, o Objeto Sensível que irá desfrutar, gerações com horizonte tão distante que imperceptível, do produto que a Ferramenta criar.

Somos a Guerra, mas também podemos ser a Paz e a Esperança. É o que os que ainda não estão aqui desejam.

COMENTÁRIO EXPLICATIVO:
  Ciente de que a discussão de um tema é sempre mais fértil do que sua mera exposição, urge que seja ressaltado que o assunto em pauta não estará concluído até que o último comentário seja feito. Começo eu mesmo iluminando pontos que julgo importantes mas que não quis incluir no texto original.
   No texto, o autor se propõe a fazer uma análise existencial a partir de um parágrafo composto de duas sentenças e três palavras.
  Poderíamos nos questionar se, mudando de lugar o ponto final e o ponto de exclamação ou incluindo em um ou outro lugar reticências, haveria mudança significativa na interpretação do texto. Com interrogação nem se discute!
   Rateei... Nasci homem?
   Pode-se perceber a preocupação, no texto, de tentar fazer o leitor perceber que cada moeda tem 2 (ou 3, ou 4) faces pelo menos e que assim são todas as coisas. Devemos perceber com os olhos do outro. Praticar a alteridade. O Houaiss e o Google estão aí para quem não sabe do que estou falando.
   Vivemos em um mundo muito rápido, onde as relações são talhadas superficialmente. Nossas esculturas não conseguem mais ser retiradas da pedra, pois não temos tempo. As relações humanas sucumbem pois não há relacionamentos com nada mais além dos nossos interesses.
   Surgimos na face da terra, crescemos, vociferamos por um certo período, nos reproduzimos e estagnamos. Perdemos a capacidade de nos indignar. Os poucos que fogem à regra produzem palavras carentes de sua seqüência lógica: a Ação.
   Estamos todos aqui nesta – como gosto de chamar – Nau Planetária atrás de um objetivo comum – sermos felizes – e parece que ainda não percebemos que tudo está interligado e que nossas ações refletem no Universo e tornam a nós, que SOMOS esse mesmo Universo.
   O Homem pode ser visto como espécie – Homo sapiens sapiens, - como gênero – Homo, ou homem, mulher, ou algo entre os clássicos. Pode ser visto como peça em engrenagem, massa de manobra. Como vítima ou como responsável pelos acontecimentos. Como uno e indivisível ou como parte e social. Como átomo ou como Universo.
   A escolha é dele. Foi ele quem criou a idéia de Deus e depois jogou o céu lá para cima e acorrentou sua existência ao mundo imperfeito que seus sentidos são capazes de perceber.
   Os que ainda são potência, torcem vivamente para que a experiência Homem dê certo. Querem ter sua chance de conhecer a Mãe Terra e ocupar um espaço e um tempo que, mesmo antes de existirem, é deles de direito.
   Cabe a nós, portanto, atuais timoneiros da nau guiar a embarcação de forma Ecológica, desenvolvendo-nos de forma sustentada e responsável, conscientes de que estamos deixando um mundo melhor para nossos filhos e os próximos que virão.
   Sejamos, indivíduos com o poder de todas as coisas, o meio para este outro mundo possível. Audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve.

Próximo texto: Apontamentos para Depois-de-Amanhã

Aja, faça parte dessa Nau Planetária! Discuta suas impressões!
 
 

Um espaço para discutir o CONHECIMENTO, buscar o EQUILÍBRIO. Desenvolver ATITUDE e cultivar o BEM-ESTAR. Uma parada para alimentar o corpo e a mente, indissociáveis entre si e do Universo. Um liquidificador efervescente que nos ensina que MENOS É MAIS e que O TODO É MAIOR QUE A SOMA DE SUAS PARTES.

ATENÇÃO: NÃO leia com atenção os textos desta coluna, pois existem pegadinhas, truques, expressões com duplo e triplo significado e exercícios mentais e corporais a serem feitos. Não vais querer que te peguem com cara de tonto na frente do computador, vai?

 
 

Rafael Luiz Reinehr nasceu em Primeiro de Julho de Mil Novescentos e Setenta e Seis e há mais de dez anos ouve vozes no chuveiro que lhe dizem o que fazer.

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